
Tecnologias de apoio à Comunicação
De acordo com o projeto HEART (Azevedo, Féria, Nunes da Ponte, Wann, & Recellado, 1994), Comunicação é a capacidade de gerar, emitir, receber e perceber mensagens, interagir com outros indivíduos face a face ou a distância, num contexto social particular.
COMUNICAÇÃO AUMENTATIVA E ALTERNATIVA
A área do conhecimento que estuda soluções para as Necessidades Complexas de Comunicação é designada por Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). De acordo com a American Speech-Language-Hearing Association (ASHA), a comunicação aumentativa e alternativa envolve o estudo e, quando necessário, a compensação de incapacidades temporárias ou permanentes, de limitações nas atividades e de restrições à participação de pessoas com perturbações severas na produção e/ou compreensão da linguagem, incluindo os modos falados e escritos da comunicação (American Speech-Language-Hearing Association, 2005). A comunicação diz-se aumentativa quando complementa (não substituindo) outros modos de comunicação, tais como fala, gestos, vocalizações, expressões faciais; designa-se por alternativa quando emprega métodos, modos e estratégias alternativos.
A CAA inclui quatro componentes primárias: símbolos, produtos de apoio, técnicas e estratégias (Beukelman & Mirenda, 2005).
-Símbolos podem ser gráficos, auditórios, gestuais ou tácteis. Podem ser usados pela pessoa apenas com recurso ao seu corpo (sinais, gestos, expressões faciais), em sistemas de comunicação sem ajuda, ou podem requerer o uso de objetos físicos, imagens, desenhos ou ortografia, em sistemas de comunicação com ajuda.
-Produtos de apoio, neste contexto, referem-se aos produtos (eletrónicos ou não) usados para transmitir e/ou receber mensagens.
-Técnicas de comunicação são a forma através da qual a mensagem pode ser transmitida (por exemplo, engloba as técnicas de seleção direta e indireta discutidas na Secção 5.1). Finalmente, Estratégias referem-se ao modo de transmitir as mensagens de forma mais eficaz e eficiente. As estratégias podem ter três objetivos: melhorar a sincronização das mensagens, auxiliar a formulação gramatical das mensagens ou aumentar a taxa de comunicação.
SÍMBOLOS
Vários sistemas de símbolos gráficos foram desenvolvidos, com diferentes objetivos e vocabulários, formando diferentes linguagens. A escolha de um sistema de símbolos particular depende das necessidades e preferências de cada um. Os símbolos gráficos são imagens que representam visualmente uma palavra ou conceito com o objetivo de clarificar e facilitar a sua compreensão.
São usados por todas as pessoas no dia a dia (e.g., sinais de trânsito) e podem ser particularmente úteis, por exemplo, para pessoas que estão a aprender uma segunda língua, pessoas com dificuldades de memória, demência ou outra lesão cerebral, pessoas com dislexia, disartria ou dificuldades espaciais/temporais/organizacionais, pessoas com deficiências auditivas, pessoas com perturbações do espectro do autismo ou pessoas que não saibam ler. Os sistemas de símbolos podem ajudar na comunicação, promover a independência e a participação, desenvolver a literacia e a aprendizagem, e permitir o acesso a informação.
QUADROS DE COMUNICAÇÃO
Os símbolos, qualquer que seja o sistema escolhido, são utilizados em produtos de apoio à comunicação, eletrónicos ou não. São usualmente agrupados de acordo com diferentes contextos de utilização, constituindo quadros de comunicação.
Estes quadros podem ser estáticos, sendo todos os símbolos apresentados simultaneamente, ou podem ser dinâmicos, contendo símbolos que remetem para outros quadros de comunicação. Enquanto os primeiros são mais usados em sistemas de baixo desenvolvimento tecnológico (por exemplo, uma simples folha de papel comos símbolos impressos), os segundos são a regra em sistemas de comunicação baseados em computadores utilizando software de comunicação adequado. No entanto, qualquer que seja o grau de desenvolvimento tecnológico do produto de apoio, é possível utilizar ambos os tipos de quadros.
A grande vantagem dos quadros de comunicação dinâmicos em relação aos estáticos é a possibilidade de incluir mais vocabulário. São, no entanto, mais exigentes do ponto de vista cognitivo, pois requerem o conhecimento da organização dos símbolos e a sua memorização.
PRODUTOS DE APOIO À COMUNICAÇÃO
-Produtos de apoio de baixo desenvolvimento tecnológico
Os produtos de apoio à comunicação mais simples são constituídos por um suporte físico onde são colocados símbolos que o utilizador escolhe através de um método de seleção direta ou indireta com o auxílio do seu interlocutor.
-Produtos de apoio de elevado desenvolvimento tecnológico
Os produtos de apoio à comunicação eletrónicos envolvem normalmente a produção de fala. Podem ser divididos em digitalizadores de fala ou comunicadores, em que o dispositivo reproduz mensagens previamente gravadas, e em sintetizadores de fala, em que qualquer mensagem escrita é convertida para fala através de algoritmos de síntese de fala. Enquanto os primeiros são independentes da língua (os utilizadores podem gravar qualquer fala ou som), os segundos dependem de versões de software com vozes para um determinado idioma. Por outro lado, a síntese de fala tem a vantagem de não estar dependente de mensagens previamente programadas, podendo o utilizador “dizer” o que pretende em cada instante.
-Produtos de apoio para pessoas com deficiência visual
Os leitores de ecrã são programas informáticos que recebem a informação que é transmitida visualmente através do ecrã do computador convertendo-a em informação auditiva ou táctil. Utilizando um leitor de ecrã uma pessoa cega pode aceder a todas as funções do sistema operativo, recebendo as informações visuais na forma auditiva (voz sintetizada) ou táctil (linha Braille ou impressão em Braille). Atualmente, a maioria dos sistemas operativos inclui leitores de ecrã, embora alguns destes sejam limitados nas funcionalidades. Os utilizadores de leitor de ecrã recorrem ao teclado do computador (ou a teclas de comando da linha Braille) para aceder aos comandos de leitura. Há também dispositivos para leitura de livros eletrónicos (eBooks) que incluem leitor de ecrã.
As linhas Braille são dispositivos eletromecânicos que exibem, dinamicamente, a informação do leitor de ecrã em carateres Braille. A tecnologia consiste num conjunto de pontos que sobressaem ou recolhem, permitindo que a informação do ecrã seja convertida em Braille. As linhas Braille são particularmente importantes para pessoas com surdo-cegueira que, desta forma, recebem toda a informação do computador através do tato. Há linhas Braille de diversos tamanhos e com diferentes características técnicas.
As impressoras Braille convertem o texto (escrito no computador ou digitalizado e convertido por meio de programas de OCR em carateres Braille impressos em papel.
Os ampliadores são produtos de apoio que ampliam a informação visual de forma a poder ser acedida por pessoas com baixa visão. Há uma grande variedade de ampliadores nos mercados nacional e internacional dos produtos de apoio.
As lupas são ampliadores óticos que têm a vantagem de ser portáteis, leves, simples de utilizar e de baixo custo. Algumas lupas incluem iluminação para aumentar o contraste, outras podem ter lentes com diferentes graduações.
Apesar de práticos e simples, os ampliadores óticos são limitados no grau de ampliação e de contraste. Por seu lado, os ampliadores eletrónicos têm maior capacidade de ampliação e permitem grande flexibilidade e ajuste a diferentes características visuais dos utilizadores. Podem ser portáteis ou de mesa, ampliar livros e outros objetos (ampliadores baseados em câmaras de vídeo).
-Produtos de apoio para pessoas com deficiência auditiva
Os produtos de apoio à comunicação mais utilizados por pessoas com deficiência auditiva são as próteses auditivas, que amplificam e modulam o som para o utilizador. Existe grande variedade de marcas e modelos, variando em tamanho, tipo de colocação e especificações técnicas. Os aparelhos auditivos são dispositivos eletroacústicos, tipicamente compostos por quatro partes: microfone, amplificador, recetor e fonte de energia.
Atualmente, estes aparelhos são digitais e programáveis, o que possibilita a modulação do sinal de forma a ajustar a amplificação às características específicas do utilizador, no que se refere aos diferentes níveis de audição em diferentes gamas de frequência. Com o processamento digital de sinal, os fabricantes procuram otimizar o aparelho auditivo para o reconhecimento de fala e redução de ruído.
BARREIRAS À UTILIZAÇÃO DE SISTEMAS DE COMUNICAÇÃO AUMENTATIVA E ALTERNATIVA
São muitas as barreiras à utilização de sistemas de comunicação aumentativa e alternativa. Enumeram- -se aqui algumas delas, evidenciadas em diversos estudos, querendo chamar a atenção para diferentes atitudes e contextos que geram o problema frequente do abandono de sistemas de CAA.
Um receio muito frequente dos pais e cuidadores, ou dos próprios utilizadores, é que o uso de sistemas de comunicação aumentativa e alternativa prejudique ou impeça a recuperação ou a aprendizagem da fala natural. Não existe, no entanto, qualquer evidência científica desse efeito (Light & Drager, 2007). Pelo contrário, há situações em que o sistema de comunicação aumentativa e alternativa pode estimular a vocalização, como é o caso de adultos afásicos que usam um sistema de CAA para treinar a sua própria fala (Beukelman & Mirenda, 2005).
A lentidão com que é mantida a comunicação é uma das maiores barreiras à utilização destes sistemas. Para comparação, refira-se que um discurso normal é efetuado a 150 a 200 palavras por minuto, um estenógrafo treinado é capaz de escrever 60 a 65 palavras por minuto, enquanto que um utilizador de CAA experiente não produz mais que 15 palavras por minuto, na maioria das situações (Beukelman & Mirenda, 2005).
Também, por vezes, existe alguma desconfiança sobre a autoria das mensagens, principalmente com o uso de sistemas com síntese de fala (Beukelman, Fager, Ball, & Dietz, 2007).
Em determinados contextos, por exemplo numa sala de aula, a voz sintetizada pode ser considerada disruptiva, perturbando o normal funcionamento da turma (Cook & Polgar, 2008).
Existe também o preconceito generalizado de que quem não é capaz de falar possui um défice cognitivo. Estudos mostram que fatores como o género, o tipo de deficiência, a idade, a experiência e familiaridade do utilizador com sistemas de CAA e o contexto social afetam as atitudes das pessoas face a utilizadores de CAA (Cook & Polgar, 2008; Beukelman & Mirenda, 2005).
Do lado de quem necessita dos sistemas de comunicação aumentativa e alternativa, a não adequação do produto ao contexto[52], as dificuldades de parametrização e utilização, e a não identificação com a voz emitida pelo dispositivo estão entre as razões para não aderir à sua utilização (Beukelman & Mirenda, 2005).







